sexta-feira, 11 de setembro de 2026

11 DE SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA





11 DE SETEMBRO

Setembro, dia 11.
Ano de 2001.
Estados Unidos da América.

Gente a ser gente 
caminha nos aeroportos.
Entre essa gente a ser gente
vão répteis com forma de gente,
mas que não é gente
– são consciências intoxicadas,
fantasmas drogados pela ideologia, 
com a missão de matar, destruir
e semear medo.

Os aviões fazem-se aos céus
e, entre gente a ser gente,
os répteis com forma de gente
saem dos seus lugares.

Os fantasmas drogados 
deixam a forma de gente
e a essência de réptil
para se transformarem
em linhas de fanatismo, 
estupefaciente com cem por cento 
de assassina pureza,
para a sua overdose final.

Gente a ser gente 
deixou de ser gente
que podia estar aqui,
vinte e cinco anos depois,
para continuar a ser gente
e a dar frutos de gente
– mas não está.

Drogados de ideologia
transformaram em armas
aviões com gente dentro
e gente a ser gente,
– gente de verdade –,
no ar, em prédios e no chão,
foi vítima do fanatismo;
droga que alucina,
droga de cobardia.

Gente a ser gente na memória
diz-nos, lá do cimo do martírio:
Cuidado com a igualdade das formas;
há répteis com forma de gente,
mas que são drogados de ideologia.

Gente a ser gente na memória,
gente presente, lança-nos o aviso:

CUIDEM DA LIBERDADE!


Soares Teixeira – 11 de Setembro de 2026

(© todos os direitos reservados)




 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA

 



SETEMBRO
 
 
Setembramo-nos, meu mundo.
Hoje, dia 1,
o tempo vai começar a refeição de um novo mês;
as folhas das árvores já pensam que não falta muito
para serem asas castanhas no peito da terra;
o céu olha para baixo – aguarda a sonata de adeuses.
Hoje, dia 1,
olho para as sílabas e consoantes
da palavra Setembro
e respiro-as,
balouçando-me em mim, lentamente,
entrelaçado com perguntas que não me apetece fazer,
a mim e ao mundo.
Hoje, dia 1,
mais um número, mais um mês, mais rio de mim percorrido.
Come, tempo, os frutos do novo mês.
Ficarei contente enquanto mos fores dando a provar.
Hoje, vestidos de dia 1,
setembramo-nos, meu mundo.
 
 
Soares Teixeira – 01 de Setembro de 2026
(© todos os direitos reservados)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA

    

     

EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA


EQUAÇÃO
 
 
Mar
meu trabalho
minha profissão
de raíz líquida e flor estrelada
em que o caule era eu
minha distância salgada
entre o perto e o longe,
entre o agora e o depois,
entre o ser e o acontecer
Mar
quando penso
neste que sou e naquele que fui
neste que sobrou daquele que foi
vejo uma equação
a brilhar na curva de um caminho
e não sei se lhe chame
destino ou condição
não sei
talvez espinho
talvez vazio no calendário
onde eu e o meu contrário
tínhamos de ser outro ainda
porque aquela realidade
eram veias de outra dimensão
Mar
antepassados, navios e viagens
ondulam na lembrança
- de olhos fechados
recordo aquele tempo;
eu no mundo
com o mundo em mim
e a sorrir
uma claridade mostra-me
um brinquedo de criança
 
 
Soares Teixeira – 01-05-2026
(© todos os direitos reservados)






quinta-feira, 23 de abril de 2026

O PEIXE - SOARES TEIXEIRA

 

O PEIXE
 
 
Dentro do meu mar
procuro-me
na próxima palavra
na próxima página
no próximo livro
 
Aquilo que de mim aconteceu
espreita de uma algibeira
e procura
o que de mim está por acontecer
 
O antes são árvores
que fazem este agora
a querer crescer em bosque
até um dia beijar o rio
 
Aguardo que do silêncio de sílabas
ainda pousadas em terraços distantes
venham aves de sol
saídas de páginas futuras
para iluminarem o caminho
que ainda tenho de percorrer
 
Mas…
deixo ser peixe o meu sorriso
para aquele livro
que de tanto ser navio onde vou
é navio que sou
 
Sim
Os Lusíadas
 
Obrigado Camões
 
 
 

Soares Teixeira – 23-04-2026 (Dia Mundial do Livro)
(© todos os direitos reservados)

domingo, 22 de março de 2026

POEMA DE AMOR - FERNANDO NAMORA

 



POEMA DE AMOR


Se te pedirem, amor, se te pedirem

que contes a velha história

da nau que partiu

e se perdeu,

não contes, amor, não contes

que o mar és tu

e a nau sou eu.


E se pedirem, amor, e se pedirem

que contes a velha fábula

do lobo que matou o cordeiro

e lhe devorou as entranhas,

não contes, amor, não contes

que o lobo é a minha carne

e o cordeiro a minha estrela

que sempre tu conheceste

e te guiou — mal ou bem.


Depois, sabes, estou enjoado

desta farsa.

Histórias, fábulas, amores

tudo me corre os ouvidos

a fugir.


Sou o guerreiro sem forças

para erguer a sua espada,

sou o piloto do barco

que a tempestade afundou.


Não contes, amor, não contes

que eu tenho a alma sem luz.


...Quero-me só, a sofrer e arrastar

a minha cruz.


Fernando Namora



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

QUASE UM POEMA DE AMOR - MIGUEL TORGA

 



Quase um Poema de Amor



Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga, in 'Antologia Poética', pp 293


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

CÂNTICO NEGRO - JOSÉ RÉGIO


 



CÂNTICO NEGRO

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
—Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí!

José Régio



sábado, 17 de janeiro de 2026

O FUNCIONÁRIO CANSADO - ANTÓNIO RAMOS ROSA




O FUNCIONÁRIO CANSADO

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado de um dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa



 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE - JOSÉ LUÍS PEIXOTO



Explicação da Eternidade


devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"


 

sábado, 13 de dezembro de 2025

AMEI-TE COM AS PALAVRAS - ROSA LOBATO DE FARIA

 




AMEI-TE COM AS PALAVRAS

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.
Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.
Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.
Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.


Rosa Lobato de Faria


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

OBRIGADO, MARIA JOÃO PIRES - SOARES TEIXEIRA


Wolfgang Amadeus Mozart
Piano Concerto No 20 in D menor K 466
Maria João Pires, piano.
Daniel Harding, maestro dirige a Swedish Radio Symphony Orchestra



OBRIGADO, MARIA JOÃO PIRES
 
Solar
descobriu nos dedos
que o piano era universo
e nele semeou
instantes para lá do tempo
 
Mozart escutava
como mãos de luz e rio
tornavam a sua música
árvores a dançar no céu
e sorria, contente
 
O mundo sentia-se poema
e as pessoas pétalas
que se deixavam ir
em viagem de leveza
 
Em suave som de sino
disse adeus à sua dádiva
e nós dizemos:
Obrigado
Maria João Pires
 
Soares Teixeira – 10 de Novembro de 2025
(© todos os direitos reservados) 

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A NOITE - LUÍS MIGUEL NAVA

 



A NOITE

A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê-los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar-nos os poros. Seriam umas duas ou três
da tarde e nós sentíamo-las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam-se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.


Luís Miguel Nava 
(Viseu, 29 de Setembro de 1957 - Bruxelas, 9 de Maio de 1995)




sexta-feira, 15 de agosto de 2025

TERNURA - DAVID MOURÃO FERREIRA

 




TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira





quarta-feira, 6 de agosto de 2025

HIROSHIMA 06-08-1945 - SOARES TEIXEIRA

 

HIROSHIMA

A 6 de agosto de 1945 foi lançada sobre a cidade japonesa de Hiroshima a primeira bomba nuclear da 
História. Estima-se que 70 mil pessoas tenham morrido imediatamente e cerca de 60 mil, vítimas de sequelas, nos meses seguintes.



HIROSHIMA, 06-08-1945
 
 
Átomos apocalípticos
vomitam um clarão a estrondear
 
A explosão é um cortar de gargantas
ao espaço e ao tempo
 
Olhos, portas e árvores
são arrancados com febris dedos
de ensurdecedores gritos de luz
e tudo fica carcaça
 
Hiroshima
arde até aos ossos alucinados
 
A memória contorce-se
em lancinante grito de aviso
 
 
Soares Teixeira – 06 de Agosto de 2025
(© todos os direitos reservados)



segunda-feira, 28 de julho de 2025

POEMA EM LINHA RECTA - ÁLVARO DE CAMPOS

 


POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Álvaro de Campos

(heterónimo de Fernando Pessoa)

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 312.


sexta-feira, 27 de junho de 2025

A FALÉSIA - LAUREN MENDINUETA

 



A FALÉSIA
 
A casa estava ancorada
à beira da falésia
mais alta do mundo.
Durante as tempestades
o vento empurrava-a
para a garganta do mar.
O abismo habitava
junto das nossas camas,
aberto, húmido e insaciável
como a minha fome de amor,
como a minha sede de terra firme.
As noites eram longas
para a costureira insone,
a jovem mulher de costas dobradas,
cabeça cravada no tecido
e os olhos cansados
à luz de uma vela quase eterna.
Essa jovem costureira era a minha mãe,
a mesma que coseu com o seu fio de voz
o meu vestido de poeta.
 
Lauren Mendinueta



quarta-feira, 18 de junho de 2025

TERESA RITA LOPES

 

SOARES TEIXEIRA E TERESA RITA LOPES
(Soares Teixeira e Teresa Rita Lopes)


Teresa Rita Lopes (1937-2025)

Teresa Rita Lopes foi uma muito destacada intelectual sobejamente conhecida do panorama literário português e um nome determinante para quem se interessa pela Obra de Fernando Pessoa. Professora Catedrática, pessoana de referência, dramaturga, poeta, ensaísta, Teresa Rita Lopes orientou toda a sua vida para a Cultura tendo sido fundadora do Instituto de Estudos sobre o Modernismo. Da sua obra poética refira-se: Os dedos os Dias as Palavras (1987); Por assim Dizer (1994); Cicatriz (1996); Afectos (2000); Jogos, Versos e Redacções (2001); A Nova Descoberta de Timor (2002); A Fímbria da Fala (2002); O Sul dos Meus Sonhos (2009).Como dramaturga deixou-nos obras como: Três Fósforos (1962); Sopinhas de Mel (1981); Rimance da Mal Maridada e Sopinhas de Mel (1994); Andando andando (1999); Esse tal Alguém (2001); As Barbas de Sua Senhoria (2003); A Asa e a Casa (2004)Ao longo da sua carreira, foi premiada com vários prémios, a destacar: 1987 - Prémio Cidade de Lisboa, pela obra Os dedos, os dias, as palavras; 1996 - Prémio Eça de Queiroz de Poesia, pela obra Cicatriz; 2001 - Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores, pela obra Esse tal Alguém. Foi também uma Amiga com quem troquei visões poéticas e uma Mestra que jamais esquecerei.


segunda-feira, 12 de maio de 2025

QUANDO DE MINHA MÁGOAS A COMPRIDA - LUÍS DE CAMÕES

 



QUANDO DE MINHAS MÁGOAS A COMPRIDA


Quando de minhas mágoas a comprida

Maginação os olhos me adormece,

Em sonhos aquel' alma m' aparece

Que para mim foi sonho nesta vida.


Lá nüa soidade, onde estendida

A vista pelo campo desfalece,

Corro par' ela; e ela então parece

Que mais de mim se alonga, compelida.


Brado: - Não me fujais, sombra benina!

Ela, (os olhos em mim c'um brando pejo,

Como quem diz que já não pode ser),


Torna a fugir-me; e eu gritando: - Dina...

Antes que diga: - mene, acordo, e vejo

Que nem um breve engano posso ter.



Luís de Camões





terça-feira, 29 de abril de 2025

OBRIGADO FRANCISCO - SOARES TEIXEIRA

 



OBRIGADO, FRANCISCO
 
A ti,
insubmisso poema
a desafiar espadas e emboscadas,
serena rebeldia
a plantar cravos em precipícios,
relâmpago de revolução
com sorriso de Cristo sem filtro,
gigante saído do infinito
a caminhar com a fé dos rios
 
A ti
peregrino, penitente,
solidário, solitário,
veleiro de luta, mapa de coragem,
herói dos céus da alma
 
A ti
Francisco
eu agradeço
 
 
Soares Teixeira

-----

THANK YOU, FRANCIS


To you,
insubmissive poem
defying swords and ambushes,
serene rebellion
planting carnations on precipices,
lightning of revolution
with the smile of Christ without a filter,
a giant from infinity
walking with the faith of rivers

To you
pilgrim, penitent,
in solidarity, solitary,
sailboat of struggle, map of courage,
hero of the heavens of the soul

To you
Francis
I thank you


Soares Teixeira


----------


GRAZIE, FRANCESCO

A te,
poesia insubordinata
che sfida spade e agguati,
serena ribellione
piantando garofani sui precipizi,
lampo di rivoluzione
con il sorriso di Cristo senza filtro,
un gigante dell'infinito
che cammina con la fede dei fiumi

A te
pellegrino, penitente,
solidale, solitario,
veliero della lotta, mappa del coraggio,
eroe dei cieli dell'anima

A te
Francesco
ti ringrazio


Soares Teixeira

-------------

GRACIAS, FRANCISCO

A ti,
poema insumiso
desafiando espadas y emboscadas
serena rebelión
plantando claveles en los precipicios,
relámpago de revolución
con la sonrisa de Cristo sin filtro
gigante del infinito
caminando con la fe de los ríos


A ti
peregrino, penitente
solidario, solitario,
velero de lucha, mapa de coraje,
héroe de los cielos del alma


A ti
Francisco
te lo agradezco


Soares Teixeira





sexta-feira, 21 de março de 2025

JARDIM DO MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - SOARES TEIXEIRA

 



Jardim do Mar

Vi um jardim que se desenrolava
Ao longo de uma encosta suspenso
Milagrosamente sobre o mar
Que do largo contra ele cavalgava
Desconhecido e imenso.

Jardim de flores selvagens e duras
E cactos torcidos em mil dobras,
Caminhos de areia branca e estreitos
Entre as rochas escuras
E aqui além, os pinheiros
Magros e direitos.

Jardim do mar, do sol e do vento,
Áspero e salgado,
Pelos duros elementos devastado
Como por um obscuro tormento:
E que não podendo como as ondas
Florescer em espuma,
Raivoso atira para o largo, uma a uma,
As pétalas redondas
Das suas raras flores.

Jardim que a água chama e devora
Exausto pelos mil esplendores
De que o mar se reveste em cada hora.

Jardim onde o vento batalha
E que a mão do mar esculpe e talha.
Nu, áspero, devastado,
Numa contínua exaltação,
Jardim quebrado
Da imensidão.
Estreita taça
A transbordar da anunciação
Que às vezes nas coisas passa.


Sophia de Mello Breyner Andresen


11 DE SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA

11 DE SETEMBRO Setembro, dia 11. Ano de 2001. Estados Unidos da América. Gente a ser gente  caminha nos aeroportos. Entre essa gente a ser g...