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domingo, 22 de março de 2026

POEMA DE AMOR - FERNANDO NAMORA

 



POEMA DE AMOR


Se te pedirem, amor, se te pedirem

que contes a velha história

da nau que partiu

e se perdeu,

não contes, amor, não contes

que o mar és tu

e a nau sou eu.


E se pedirem, amor, e se pedirem

que contes a velha fábula

do lobo que matou o cordeiro

e lhe devorou as entranhas,

não contes, amor, não contes

que o lobo é a minha carne

e o cordeiro a minha estrela

que sempre tu conheceste

e te guiou — mal ou bem.


Depois, sabes, estou enjoado

desta farsa.

Histórias, fábulas, amores

tudo me corre os ouvidos

a fugir.


Sou o guerreiro sem forças

para erguer a sua espada,

sou o piloto do barco

que a tempestade afundou.


Não contes, amor, não contes

que eu tenho a alma sem luz.


...Quero-me só, a sofrer e arrastar

a minha cruz.


Fernando Namora



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

QUASE UM POEMA DE AMOR - MIGUEL TORGA

 



Quase um Poema de Amor



Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga, in 'Antologia Poética', pp 293


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

CÂNTICO NEGRO - JOSÉ RÉGIO


 



CÂNTICO NEGRO

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
—Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí!

José Régio



sábado, 17 de janeiro de 2026

O FUNCIONÁRIO CANSADO - ANTÓNIO RAMOS ROSA




O FUNCIONÁRIO CANSADO

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado de um dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa



 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE - JOSÉ LUÍS PEIXOTO



Explicação da Eternidade


devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"


 

sábado, 13 de dezembro de 2025

AMEI-TE COM AS PALAVRAS - ROSA LOBATO DE FARIA

 




AMEI-TE COM AS PALAVRAS

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.
Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.
Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.
Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.


Rosa Lobato de Faria


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A NOITE - LUÍS MIGUEL NAVA

 



A NOITE

A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê-los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar-nos os poros. Seriam umas duas ou três
da tarde e nós sentíamo-las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam-se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.


Luís Miguel Nava 
(Viseu, 29 de Setembro de 1957 - Bruxelas, 9 de Maio de 1995)




sexta-feira, 15 de agosto de 2025

TERNURA - DAVID MOURÃO FERREIRA

 




TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira





segunda-feira, 28 de julho de 2025

POEMA EM LINHA RECTA - ÁLVARO DE CAMPOS

 


POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Álvaro de Campos

(heterónimo de Fernando Pessoa)

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 312.


sexta-feira, 27 de junho de 2025

A FALÉSIA - LAUREN MENDINUETA

 



A FALÉSIA
 
A casa estava ancorada
à beira da falésia
mais alta do mundo.
Durante as tempestades
o vento empurrava-a
para a garganta do mar.
O abismo habitava
junto das nossas camas,
aberto, húmido e insaciável
como a minha fome de amor,
como a minha sede de terra firme.
As noites eram longas
para a costureira insone,
a jovem mulher de costas dobradas,
cabeça cravada no tecido
e os olhos cansados
à luz de uma vela quase eterna.
Essa jovem costureira era a minha mãe,
a mesma que coseu com o seu fio de voz
o meu vestido de poeta.
 
Lauren Mendinueta



segunda-feira, 12 de maio de 2025

QUANDO DE MINHA MÁGOAS A COMPRIDA - LUÍS DE CAMÕES

 



QUANDO DE MINHAS MÁGOAS A COMPRIDA


Quando de minhas mágoas a comprida

Maginação os olhos me adormece,

Em sonhos aquel' alma m' aparece

Que para mim foi sonho nesta vida.


Lá nüa soidade, onde estendida

A vista pelo campo desfalece,

Corro par' ela; e ela então parece

Que mais de mim se alonga, compelida.


Brado: - Não me fujais, sombra benina!

Ela, (os olhos em mim c'um brando pejo,

Como quem diz que já não pode ser),


Torna a fugir-me; e eu gritando: - Dina...

Antes que diga: - mene, acordo, e vejo

Que nem um breve engano posso ter.



Luís de Camões





terça-feira, 29 de abril de 2025

OBRIGADO FRANCISCO - SOARES TEIXEIRA

 



OBRIGADO, FRANCISCO
 
A ti,
insubmisso poema
a desafiar espadas e emboscadas,
serena rebeldia
a plantar cravos em precipícios,
relâmpago de revolução
com sorriso de Cristo sem filtro,
gigante saído do infinito
a caminhar com a fé dos rios
 
A ti
peregrino, penitente,
solidário, solitário,
veleiro de luta, mapa de coragem,
herói dos céus da alma
 
A ti
Francisco
eu agradeço
 
 
Soares Teixeira

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THANK YOU, FRANCIS


To you,
insubmissive poem
defying swords and ambushes,
serene rebellion
planting carnations on precipices,
lightning of revolution
with the smile of Christ without a filter,
a giant from infinity
walking with the faith of rivers

To you
pilgrim, penitent,
in solidarity, solitary,
sailboat of struggle, map of courage,
hero of the heavens of the soul

To you
Francis
I thank you


Soares Teixeira


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GRAZIE, FRANCESCO

A te,
poesia insubordinata
che sfida spade e agguati,
serena ribellione
piantando garofani sui precipizi,
lampo di rivoluzione
con il sorriso di Cristo senza filtro,
un gigante dell'infinito
che cammina con la fede dei fiumi

A te
pellegrino, penitente,
solidale, solitario,
veliero della lotta, mappa del coraggio,
eroe dei cieli dell'anima

A te
Francesco
ti ringrazio


Soares Teixeira

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GRACIAS, FRANCISCO

A ti,
poema insumiso
desafiando espadas y emboscadas
serena rebelión
plantando claveles en los precipicios,
relámpago de revolución
con la sonrisa de Cristo sin filtro
gigante del infinito
caminando con la fe de los ríos


A ti
peregrino, penitente
solidario, solitario,
velero de lucha, mapa de coraje,
héroe de los cielos del alma


A ti
Francisco
te lo agradezco


Soares Teixeira





sexta-feira, 21 de março de 2025

JARDIM DO MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - SOARES TEIXEIRA

 



Jardim do Mar

Vi um jardim que se desenrolava
Ao longo de uma encosta suspenso
Milagrosamente sobre o mar
Que do largo contra ele cavalgava
Desconhecido e imenso.

Jardim de flores selvagens e duras
E cactos torcidos em mil dobras,
Caminhos de areia branca e estreitos
Entre as rochas escuras
E aqui além, os pinheiros
Magros e direitos.

Jardim do mar, do sol e do vento,
Áspero e salgado,
Pelos duros elementos devastado
Como por um obscuro tormento:
E que não podendo como as ondas
Florescer em espuma,
Raivoso atira para o largo, uma a uma,
As pétalas redondas
Das suas raras flores.

Jardim que a água chama e devora
Exausto pelos mil esplendores
De que o mar se reveste em cada hora.

Jardim onde o vento batalha
E que a mão do mar esculpe e talha.
Nu, áspero, devastado,
Numa contínua exaltação,
Jardim quebrado
Da imensidão.
Estreita taça
A transbordar da anunciação
Que às vezes nas coisas passa.


Sophia de Mello Breyner Andresen


sábado, 28 de dezembro de 2024

TODOS - SOARES TEIXEIRA

 



TODOS

 
Olhando os seus perfis
vemos proas que são horizonte,
e de frente
vemos pêssegos de esperança.
Das mãos nasce-lhes poesia
enlaçada com múltiplas ferramentas
 
Se observarmos bem
reparamos que os seus ombros são pombas,
se nos detivermos um pouco
sentimos nos seus peitos o crescer de vinhas,
se pronunciarmos os seus nomes
diremos terra e céu e chuva e oceano
 
Se uma rua de pensamento nos convidar
entremos, respeitosamente,
ao fundo está uma coluna
e nela gravada uma palavra
com a luz dos seus corações palpitantes
e a palavra é: TODOS

 
 
Soares Teixeira


domingo, 1 de dezembro de 2024

DECLARAÇÃO DE AMOR - ANTÓNIO GEDEÃO - SOARES TEIXEIRA

 



 


Declaração de Amor

Excita-me a tua presença, ó Árvore – ó Árvores todas!
Desejo-te (desejo-vos) como se fosses Carne, e eu Desejo.
Como se eu fosse o vento que preside às tuas bodas,
e te cicia em redor, e te fecunda num aliciante beijo.

Ponho os olhos em ti e entretenho-me a pensar que sou mãos,
todo mãos que te envolvem o tronco e te sacodem convulsivamente.
Requebras-te com volúpia, e os teus emaranhados cabelos louçãos
fustigam o ar como látegos, com toda a força que este amor me consente.

Ó Árvore minha débil! Ó prazer dos meus olhos extáticos!
Ó filtro da luz do Sol! Ó refresco dos sedentos!
Destila nos meus lábios as gotas dos teus ésteres aromáticos,
unge a minha epiderme com teus macios unguentos.

Desnuda-me a tua intimidade, ó Árvore! Diz-me a que segredos recorres
para te desenrolares em flores e em frutos num cíclico desvario.
Porque é que tudo morre à tua volta e tu não morres,
e aceitas sempre o Amor com renovado cio.

Inicia-me nos teus mistérios, ó feiticeira dos cabelos verdes.
Ensina-me a transformar um raio de Sol em suculenta carnadura,
e nesses perfumes subtis que a toda a hora perdes,
prolongando o teu ser no ar que te emoldura.

É através de ti, ó Árvore, que celebro os esponsais entre mim e a Natureza.
É através de ti que bebo a nuvem fresca e mordo a terra ardente.
É de ti que recebo as leis do Amor e da Beleza.
Amo-te, ó Árvore, apaixonadamente!

António Gedeão (1906-1997), in “Máquina de fogo”, 1961


domingo, 3 de novembro de 2024

"NILO" - SOARES TEIXEIRA

 



NILO
 
 
Fluvial
a palavra corre
e irriga
a terra de onde cresce
o olhar
para a mensagem do pássaro
que ensina horizonte
 
Erguem-se linhas
unem-se pontos
preenchem-se espaços
surgem geometrias
e no brilho da perfeição
vamos
pelas mãos do tempo
ao encontro do mundo
que é ovo cósmico
 
Como papiros oscilando ao vento
vemos
que o que foi
habita o que é
e saúda o que será
 
Da base da pirâmide
aprendendo crescemos
e crescendo somos vértice
que se ilumina
para que a voz dos astros
se junte ao cântico
do sol em que nos tornámos
 
Corre Nilo
voa
e leva-nos na barca da descoberta
ao encontro do mar eterno
 
 
Soares Teixeira 
(© todos os direitos reservados)

(dedicado ao Professor José das Candeias Sales)


JOSÉ DAS CANDEIAS SALES

Soares Teixeira e o Professor José das Candeias Sales por ocasião de uma das suas palestras (11-10-2024) integradas na exposição TA-MERI do Pintor Ben Helmink, com curadoria de Olga Sousa e que decorreu no Centro Ismaili de Lisboa.



quinta-feira, 8 de agosto de 2024

ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE - LUÍS DE CAMÕES - SOARES TEIXEIRA

 



ALMA MINHA GENTIL, QUE TE PARTISTE


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

LUÍS DE CAMÕES




terça-feira, 23 de julho de 2024

MARIA JOÃO PIRES - 80 - Soares Teixeira

 




MARIA JOÃO PIRES  - 80
 
80 poemas
80 mãos que voam
80 flores que dançam
em música saúdam Maria,
- João Pires, acrescenta
um pardal saltitando,
e uma gota de orvalho sorri
 
A sair do pêssego da sua música
Mozart surge,
estende a mão,
e o pardal poisa-lhe nos dedos
 
Um rio faz-se piano
e, em silêncio,
todos escutam Maria
- Parece acabada de nascer,
murmura uma árvore
- João Pires, diz o pardal,
que voa para o teclado
levando Mozart consigo
 
80 poemas
80 mãos que voam
80 flores que dançam
canta o mundo,
com voz
de gota de orvalho
 
 
Soares Teixeira – 23 de Julho de 2024
- nos 80 anos de Maria João Pires-
(© todos os direitos reservados)



11 DE SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA

11 DE SETEMBRO Setembro, dia 11. Ano de 2001. Estados Unidos da América. Gente a ser gente  caminha nos aeroportos. Entre essa gente a ser g...