Dias 24 e 25 de Fevereiro de 2024 teve lugar o "Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões"- Rede
Camões Ásia e África. Este foi um evento da Fundação Rui Cunha, sediada em
Macau. Os organizadores e participantes estão de parabéns. Prometia-se uma
reunião científica com um núcleo de grandes especialistas e assim aconteceu. Participei como
assistente, por zoom. O convite foi-me gentilmente endereçado por Filipe Saavedra, da
Comissão Coordenadora do Congresso.
No dia 17 de Novembro, com curadoria de Lauren Mindenueta, teve lugar a Primeira Noite de Poesia Ibero-Americana. O evento decorreu em vários locais de Lisboa: Fundação José Saramago, Teatro Romano, Café Martinho da Arcada e Instituto Cervantes. Uma oportunidade para escutar e conviver com grandes poetas e assistir a magníficos debates e performances.
No Teatro Romano de Lisboa - 1ª parte da actuação: coro homenageando a grande Poeta colombiana Maruja Vieira, através da leitura de alguns dos seus poemas. Seguiram-se leituras individuais em que li algumas estrofes do Canto X de "Os Lusíadas" referentes ao Episódio da Máquina do Mundo.
Hoje, Oitava Edição dos Encontros Ibero-Americanos de Poesia e Música na Fundação José Saramago, Casa dos Bicos - Lisboa, numa tarde de imensa fraternidade e elevadissimo nível cultural.
Depois dos marinheiros lusos terem satisfeito os seus
primeiros apetites dirigem-se ao palácio de Thetys onde lhes é oferecido um
grande banquete no qual a Sirena profetiza os feitos lusitanos no Oriente.
Camões volta a recorrer ao artifício da profecia para contar o que ocorreu
entre o passado (1498, ano da descoberta do caminho marítimo para a Índia), e o
presente (o tempo em que o poema foi escrito). São enaltecidos os heróis
Portugueses. Episódio da Máquina do Mundo. Thetys faz mais profecias sobre os Portugueses.
A frota deixa a Ilha dos Amores. Chegada a Portugal. Epílogo, onde Camões
reforça a dedicatória a Dom Sebastião.
Os ‘infiéis’ fazem com que os mercadores nada comprem aos
dois feitores portugueses e prendem-nos, com o propósito de deter os portugueses
na cidade, até que de Gidá cheguem as naus muçulmanas que todos os anos vão comprar
especiaria e destruam as portuguesas. Monçaide avisa Vasco da Gama da intenção
dos mouros e do grande perigo que corre a frota lusa com a chegada eminente da
forte frota muçulmana. O Samorim manda libertar os feitores e suas fazendas. A
frota parte de regresso, levando, forçados alguns Malabares. Episódio da Ilha
dos Amores. Exortação de Camões aos que anseiam por imortalizar o seu nome.
Paulo da Gama, e
depois Vasco da Gama, explicam ao Catual o significado das pinturas que estão no
interior da nau. Entretanto o
Samorim pede para que se examinem os augúrios. A previsão transmitida ao
Samorim é de que os portugueses viriam dominar toda a Índia, o que é confirmado
pelos conselheiros islâmicos do soberano, a quem durante a noite Baco
aparecera em sonhos fazendo-se passar por Maomé dizendo-lhes que os portugueses
eram piratas e que a frota deveria ser destruída. No dia seguinte, em
que o Samorim terá de decidir entre as vantagens de firmar tratado com os
portugueses e as previsões da noite, manda chamar Vasco da Gama e acusa-o de
ser um apátrida e praticar a pirataria, instando-o a confessar toda a verdade. Vasco
da Gama reafirma as suas intenções honradas e o Samorim manda-o em liberdade,
com autorização para negociar. Contudo o ministro indiano, instigado pelos
islâmicos do reino, toma o Capitão como refém e tenta que este ordene a
aproximação da frota afim de que esta possa ser destruída. Ao ver falhar o seu
estratagema, com receio de castigo por parte do seu soberano, por estar a ir
contra as suas ordens, e aspirando ao o lucro, aceita na troca de Vasco da Gama
por mercadorias das naus portuguesas.
Este canto inicia-se com o elogio da nação lusa na luta contra os
muçulmanos, quando comparados os seus feitos com os das outras nações. Depois de aportar em Calecute Vasco da Gama envia um mensageiro ao rei. O
mensageiro encontra entre a multidão Monçaide, um mouro que falava castelhano, que o vai acompanhar e servir de tradutor. Mais tarde Monçaide
acompanha o mensageiro até à frota lusa e fala aos portugueses sobre a
história, geografia, política, religiões, usos e costumes da Índia. Vasco da Gama e Monçaide encontram-se com um ministro – Catual – que os
conduz até ao Samorim. No fim do Canto VI Camões diz sentir faltar-lhe a inspiração e fala um
pouco de si lamentando revoltado com a forma como a sua pátria o tem tratado.
Terminada a narrativa de Vasco da Gama ao Rei de Melinde,
bem como os festejos que este oferece em honra dos portugueses, a armada,
guiada por um piloto disponibilizado pelo Rei de Melinde, prossegue a viagem,
rumo a Calecute. Baco, furioso com os sucessos da frota lusa, vai pedir ajuda a
Neptuno. Os deuses marinhos (ao contrário dos deuses olímpicos) manifestam-se
contra a armada e ordenam a Éolo que solte os ventos para a afundar.
Entretanto, os marinheiros de vigia conversam despreocupadamente e pedem a Veloso
para lhes contar uma história. Este conta-lhes a história dos Doze de
Inglaterra. Surge uma violentíssima tempestade por intermédio dos deuses
marinhos. Prece de Vasco da Gama à Divina Guarda. Vénus, alarmada e irada, vai
de novo em socorro dos portugueses enviando as ninfas para seduzirem os ventos,
acalmando-os, protegendo assim a frota. A tempestade passa. Vasco da Gama
ajoelha e agradece a Deus. A frota avista Calecute. O canto acaba com Camões a
tecer considerações sobre o muito que vale a fama e a glória quando conseguidas
através dos grandes feitos, e a criticar aqueles que buscam fama, glória e
fortuna recorrendo a intrigas e valendo-se dos favores de quem tem poder.
Vasco da Gama continua a narrar ao Rei de Melinde a história
de Portugal, agora com a Segunda Dinastia - desde a Crise de 1383-1385 até ao
reinado de Dom Manuel I e ao momento em que a sua frota sai de Lisboa com
destino à Índia.
Depois da invocação a Calíope (Musa da Poesia Épica), Camões,
dando a palavra a Vasco da Gama, narra o que este contou ao Rei de Melinde,
começando pela a geografia da Europa e passando depois para a Primeira Dinastia
(que se estende até ao Canto IV). Entra-se no tempo histórico na estância 23
com o Conde Dom Henrique (Dijon, 1066 — Astorga, 12 de Maio de 1222) que foi conde
de Portucale ate à sua morte.
A Obra começa com a
Proposição, (elemento introdutório, com apresentação do tema e dos heróis),
segue-se a Invocação (Camões invoca as Tágides – ninfas do Tejo – pedindo-lhes
inspiração para a sua escrita), e em seguida a Dedicatória (Camões dedica “Os
Lusíadas” ao Rei Dom Sebastião). Tem então início o começo da Narração, a meio
da história (a Armada de Vasco da Gama já se encontra no Oceano Índico, mas
ainda não alcançou a Índia) - técnica literária denominada In medias res (latim para
"no meio das coisas").
A acção vai para o
plano dos deuses. É convocado o Consílio dos Deuses do Olimpo para
que se decida se a Frota Lusa poderá ou não atingir seu destino. Júpiter mostra-se
favorável. Baco opõe-se, porque isso significaria que as suas próprias façanhas
no Oriente seriam esquecidas. Vénus, porém, sente que será celebrada pelos
portugueses uma vez que vê neles os herdeiros dos seus amados romanos, por isso
apoia firmemente o propósito da Armada Lusa. Depois de uma discussão entre os
deuses em que Marte, vigoroso, toma partido de Vénus, Júpiter mantém o seu
parecer e dá o Consílio por terminado.
A acção volta à Armada
de Vasco da Gama, que aporta à ilha de Moçambique. Aí são recebidos por muçulmanos,
que, tementes do poder das naus, prometem fornecer mantimentos e um piloto que leve
a Frota à Índia. Contudo as intenções dessas gentes são bem diferentes. O Rei
muçulmano, inspirado por Baco, que encarnara num dos seus conselheiros,
quer a destruição da Frota. Segue-se uma luta, no decurso da qual a cidade é
bombardeada pelos portugueses. Rendição do regedor que então oferece um piloto aos
lusos – segundo estratagema de Baco – com a intenção oculta de os levar para
terras hostis.
Vénus, zelando constantemente pelos
portugueses, apercebe-se das artimanhas de Baco, e mantém a Frota segura
ultrapassando-se assim os perigos do primeiro porto. O segundo será Mombaça em
cujas águas a frota lança âncora. O canto termina com uma meditação moral,
antecedida por duas estrofes de suspense.
Maria de Jesus Barroso, uma das minhas grandes referências da Arte de Dizer. Extraordinária dicção e belíssímas interpretações quando se entregava à Poesia. A primeira vez que me cruzei com esta Grande Senhora foi numa recepção na Embaixada do Brasil em Lisboa. Quando a ouvi, de muito perto, ler alguns poemas de um livro de poesia do saudoso amigo Dr. Carlos Carranca, por ocasião do seu lançamento, fiquei fascinado. Ficaram lendárias as suas arrebatadoras declamações nos tempos negros da Ditadura, quando os Bravos enfrentavam corajosamente o negrume.
Homenageando o "NRP Sagres", que a 05-01-2020 zarpou do Cais de Santa Apolónia, em Lisboa, para recriar a viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães efectuada há 500 anos. O seu regresso está marcado para 10 de Janeiro de 2021.
BOA VIAGEM
FERNÃO DE MAGALHÃES
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
s.d.
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria
Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 67.