sexta-feira, 1 de maio de 2026

EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA

    

     

EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA


EQUAÇÃO
 
 
Mar
meu trabalho
minha profissão
de raíz líquida e flor estrelada
em que o caule era eu
minha distância salgada
entre o perto e o longe,
entre o agora e o depois,
entre o ser e o acontecer
Mar
quando penso
neste que sou e naquele que fui
neste que sobrou daquele que foi
vejo uma equação
a brilhar na curva de um caminho
e não sei se lhe chame
destino ou condição
não sei
talvez espinho
talvez vazio no calendário
onde eu e o meu contrário
tínhamos de ser outro ainda
porque aquela realidade
eram veias de outra dimensão
Mar
antepassados, navios e viagens
ondulam na lembrança
- de olhos fechados
recordo aquele tempo;
eu no mundo
com o mundo em mim
e a sorrir
uma claridade mostra-me
um brinquedo de criança
 
 
Soares Teixeira – 01-05-2026
(© todos os direitos reservados)






quinta-feira, 23 de abril de 2026

O PEIXE - SOARES TEIXEIRA

 

O PEIXE
 
 
Dentro do meu mar
procuro-me
na próxima palavra
na próxima página
no próximo livro
 
Aquilo que de mim aconteceu
espreita de uma algibeira
e procura
o que de mim está por acontecer
 
O antes são árvores
que fazem este agora
a querer crescer em bosque
até um dia beijar o rio
 
Aguardo que do silêncio de sílabas
ainda pousadas em terraços distantes
venham aves de sol
saídas de páginas futuras
para iluminarem o caminho
que ainda tenho de percorrer
 
Mas…
deixo ser peixe o meu sorriso
para aquele livro
que de tanto ser navio onde vou
é navio que sou
 
Sim
Os Lusíadas
 
Obrigado Camões
 
 
 

Soares Teixeira – 23-04-2026 (Dia Mundial do Livro)
(© todos os direitos reservados)

domingo, 22 de março de 2026

POEMA DE AMOR - FERNANDO NAMORA

 



POEMA DE AMOR


Se te pedirem, amor, se te pedirem

que contes a velha história

da nau que partiu

e se perdeu,

não contes, amor, não contes

que o mar és tu

e a nau sou eu.


E se pedirem, amor, e se pedirem

que contes a velha fábula

do lobo que matou o cordeiro

e lhe devorou as entranhas,

não contes, amor, não contes

que o lobo é a minha carne

e o cordeiro a minha estrela

que sempre tu conheceste

e te guiou — mal ou bem.


Depois, sabes, estou enjoado

desta farsa.

Histórias, fábulas, amores

tudo me corre os ouvidos

a fugir.


Sou o guerreiro sem forças

para erguer a sua espada,

sou o piloto do barco

que a tempestade afundou.


Não contes, amor, não contes

que eu tenho a alma sem luz.


...Quero-me só, a sofrer e arrastar

a minha cruz.


Fernando Namora



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

QUASE UM POEMA DE AMOR - MIGUEL TORGA

 



Quase um Poema de Amor



Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga, in 'Antologia Poética', pp 293


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

CÂNTICO NEGRO - JOSÉ RÉGIO


 



CÂNTICO NEGRO

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
—Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí!

José Régio



sábado, 17 de janeiro de 2026

O FUNCIONÁRIO CANSADO - ANTÓNIO RAMOS ROSA




O FUNCIONÁRIO CANSADO

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado de um dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa



 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE - JOSÉ LUÍS PEIXOTO



Explicação da Eternidade


devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"


 

EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA

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