ALPHA
Blog de poesia escrita e dita
terça-feira, 27 de outubro de 2026
MERDA - SOARES TEIXEIRA
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
PALCO - SOARES TEIXEIRA
Setembro, dia 30.
Setembrámo-nos, meu mundo.
Hoje, dia 30,
o tempo irá comer
a última maçã de Setembro.
O rio que sou
olha para as margens.
Lá estão eles:
numa margem o eu criança,
na outra o eu misterioso.
Três personagens
da mesma peça de teatro.
Quatro se contarmos com o tempo.
Quatro personagens,
que saem de onde estavam
e vão para um palco.
Doze bailarinos surgem.
Cada um deles é um mês do ano
e, juntos, celebram-no
numa dança simultânea.
Cósmica, simbólica, ritual.
Todos têm algo de diferente
e muito em comum.
Depois saem.
Deixam vibração enigma.
O eu rio, o eu criança, o eu misterioso
e o tempo
estão cada um no seu canto do palco.
Caminham para a maçã
que está no centro, no chão.
As personagens fundem-se numa só,
que, ao comer a maçã,
se transforma numa árvore.
A árvore observa estes meu dedos
no teclado do computador
e esfuma-se.
O palco fica vazio,
como se fosse uma folha em branco.
Com um beijo
o silêncio despede-se.
Soares Teixeira – 30 de Setembro de 2026
(© todos os direitos reservados)
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
11 DE SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA
11 DE SETEMBRO
Ano de 2001.
Estados Unidos da América.
Gente a ser gente
caminha nos aeroportos.
Entre essa gente a ser gente
vão répteis com forma de gente,
mas que não é gente
– são consciências intoxicadas,
fantasmas drogados pela ideologia,
com a missão de matar, destruir
e semear medo.
Os aviões fazem-se aos céus
e, entre gente a ser gente,
os répteis com forma de gente
saem dos seus lugares.
Os fantasmas drogados
deixam a forma de gente
e a essência de réptil
para se transformarem
em linhas de fanatismo,
estupefaciente com cem por cento
de assassina pureza,
para a sua overdose final.
Gente a ser gente
deixou de ser gente
que podia estar aqui,
vinte e cinco anos depois,
para continuar a ser gente
e a dar frutos de gente
– mas não está.
Drogados de ideologia
transformaram em armas
aviões com gente dentro
e gente a ser gente,
– gente de verdade –,
no ar, em prédios e no chão,
foi vítima do fanatismo;
droga que alucina,
droga de cobardia.
Gente a ser gente na memória
diz-nos, lá do cimo do martírio:
Cuidado com a igualdade das formas;
há répteis com forma de gente,
mas que são drogados de ideologia.
Gente a ser gente na memória,
gente presente, lança-nos o aviso:
CUIDEM DA LIBERDADE!
Soares Teixeira – 11 de Setembro de 2026
(© todos os direitos reservados)
terça-feira, 1 de setembro de 2026
SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA
Setembramo-nos, meu mundo.
Hoje, dia 1,
o tempo vai começar a refeição de um novo mês;
as folhas das árvores já pensam que não falta muito
para serem asas castanhas no peito da terra;
o céu olha para baixo – aguarda a sonata de adeuses.
Hoje, dia 1,
olho para as sílabas e consoantes
da palavra Setembro
e respiro-as,
balouçando-me em mim, lentamente,
entrelaçado com perguntas que não me apetece fazer,
a mim e ao mundo.
Hoje, dia 1,
mais um número, mais um mês, mais rio de mim percorrido.
Come, tempo, os frutos do novo mês.
Ficarei contente enquanto mos fores dando a provar.
Hoje, vestidos de dia 1,
setembramo-nos, meu mundo.
Soares Teixeira – 01 de Setembro de 2026
(© todos os direitos reservados)
sexta-feira, 1 de maio de 2026
EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA
EQUAÇÃO
Mar
meu trabalho
minha profissão
de raíz líquida e flor estrelada
em que o caule era eu
minha distância salgada
entre o perto e o longe,
entre o agora e o depois,
entre o ser e o acontecer
Mar
quando penso
neste que sou e naquele que fui
neste que sobrou daquele que foi
vejo uma equação
a brilhar na curva de um caminho
e não sei se lhe chame
destino ou condição
não sei
talvez espinho
talvez vazio no calendário
onde eu e o meu contrário
tínhamos de ser outro ainda
porque aquela realidade
eram veias de outra dimensão
Mar
antepassados, navios e viagens
ondulam na lembrança
- de olhos fechados
recordo aquele tempo;
eu no mundo
com o mundo em mim
e a sorrir
uma claridade mostra-me
um brinquedo de criança
Soares Teixeira – 01-05-2026
(© todos os direitos reservados)
quinta-feira, 23 de abril de 2026
O PEIXE - SOARES TEIXEIRA
O
PEIXE
procuro-me
na
próxima palavra
na
próxima página
no
próximo livro
espreita
de uma algibeira
e
procura
o
que de mim está por acontecer
que
fazem este agora
a
querer crescer em bosque
até
um dia beijar o rio
ainda
pousadas em terraços distantes
venham
aves de sol
saídas
de páginas futuras
para
iluminarem o caminho
que
ainda tenho de percorrer
deixo
ser peixe o meu sorriso
para
aquele livro
que
de tanto ser navio onde vou
é
navio que sou
Os
Lusíadas
(© todos os direitos reservados)
domingo, 22 de março de 2026
POEMA DE AMOR - FERNANDO NAMORA
POEMA DE AMOR
Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.
E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes a velha fábula
do lobo que matou o cordeiro
e lhe devorou as entranhas,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou — mal ou bem.
Depois, sabes, estou enjoado
desta farsa.
Histórias, fábulas, amores
tudo me corre os ouvidos
a fugir.
Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada,
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou.
Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz.
...Quero-me só, a sofrer e arrastar
a minha cruz.
Fernando Namora
MERDA - SOARES TEIXEIRA
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