segunda-feira, 12 de outubro de 2026

PALCO - SOARES TEIXEIRA

 



PALCO

Setembro, dia 30.

Setembrámo-nos, meu mundo.
Hoje, dia 30,
o tempo irá comer
a última maçã de Setembro.

O rio que sou
olha para as margens.
Lá estão eles:
numa margem o eu criança,
na outra o eu misterioso.

Três personagens 
da mesma peça de teatro.
Quatro se contarmos com o tempo.

Quatro personagens,
que saem de onde estavam
e vão para um palco.

Doze bailarinos surgem.
Cada um deles é um mês do ano
e, juntos, celebram-no 
numa dança simultânea.
Cósmica, simbólica, ritual.
Todos têm algo de diferente
e muito em comum.
Depois saem.
Deixam vibração enigma.

O eu rio, o eu criança, o eu misterioso
e o tempo
estão cada um no seu canto do palco.
Caminham para a maçã
que está no centro, no chão.
As personagens fundem-se numa só,
que, ao comer a maçã,
se transforma numa árvore.

A árvore observa estes meu dedos
no teclado do computador 
e esfuma-se.
O palco fica vazio,
como se fosse uma folha em branco.

Com um beijo
o silêncio despede-se.


Soares Teixeira – 30 de Setembro de 2026
(© todos os direitos reservados) 


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

11 DE SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA





11 DE SETEMBRO

Setembro, dia 11.
Ano de 2001.
Estados Unidos da América.

Gente a ser gente 
caminha nos aeroportos.
Entre essa gente a ser gente
vão répteis com forma de gente,
mas que não é gente
– são consciências intoxicadas,
fantasmas drogados pela ideologia, 
com a missão de matar, destruir
e semear medo.

Os aviões fazem-se aos céus
e, entre gente a ser gente,
os répteis com forma de gente
saem dos seus lugares.

Os fantasmas drogados 
deixam a forma de gente
e a essência de réptil
para se transformarem
em linhas de fanatismo, 
estupefaciente com cem por cento 
de assassina pureza,
para a sua overdose final.

Gente a ser gente 
deixou de ser gente
que podia estar aqui,
vinte e cinco anos depois,
para continuar a ser gente
e a dar frutos de gente
– mas não está.

Drogados de ideologia
transformaram em armas
aviões com gente dentro
e gente a ser gente,
– gente de verdade –,
no ar, em prédios e no chão,
foi vítima do fanatismo;
droga que alucina,
droga de cobardia.

Gente a ser gente na memória
diz-nos, lá do cimo do martírio:
Cuidado com a igualdade das formas;
há répteis com forma de gente,
mas que são drogados de ideologia.

Gente a ser gente na memória,
gente presente, lança-nos o aviso:

CUIDEM DA LIBERDADE!


Soares Teixeira – 11 de Setembro de 2026

(© todos os direitos reservados)




 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

SETEMBRO - SOARES TEIXEIRA

 



SETEMBRO
 
 
Setembramo-nos, meu mundo.
Hoje, dia 1,
o tempo vai começar a refeição de um novo mês;
as folhas das árvores já pensam que não falta muito
para serem asas castanhas no peito da terra;
o céu olha para baixo – aguarda a sonata de adeuses.
Hoje, dia 1,
olho para as sílabas e consoantes
da palavra Setembro
e respiro-as,
balouçando-me em mim, lentamente,
entrelaçado com perguntas que não me apetece fazer,
a mim e ao mundo.
Hoje, dia 1,
mais um número, mais um mês, mais rio de mim percorrido.
Come, tempo, os frutos do novo mês.
Ficarei contente enquanto mos fores dando a provar.
Hoje, vestidos de dia 1,
setembramo-nos, meu mundo.
 
 
Soares Teixeira – 01 de Setembro de 2026
(© todos os direitos reservados)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA

    

     

EQUAÇÃO - SOARES TEIXEIRA


EQUAÇÃO
 
 
Mar
meu trabalho
minha profissão
de raíz líquida e flor estrelada
em que o caule era eu
minha distância salgada
entre o perto e o longe,
entre o agora e o depois,
entre o ser e o acontecer
Mar
quando penso
neste que sou e naquele que fui
neste que sobrou daquele que foi
vejo uma equação
a brilhar na curva de um caminho
e não sei se lhe chame
destino ou condição
não sei
talvez espinho
talvez vazio no calendário
onde eu e o meu contrário
tínhamos de ser outro ainda
porque aquela realidade
eram veias de outra dimensão
Mar
antepassados, navios e viagens
ondulam na lembrança
- de olhos fechados
recordo aquele tempo;
eu no mundo
com o mundo em mim
e a sorrir
uma claridade mostra-me
um brinquedo de criança
 
 
Soares Teixeira – 01-05-2026
(© todos os direitos reservados)






quinta-feira, 23 de abril de 2026

O PEIXE - SOARES TEIXEIRA

 

O PEIXE
 
 
Dentro do meu mar
procuro-me
na próxima palavra
na próxima página
no próximo livro
 
Aquilo que de mim aconteceu
espreita de uma algibeira
e procura
o que de mim está por acontecer
 
O antes são árvores
que fazem este agora
a querer crescer em bosque
até um dia beijar o rio
 
Aguardo que do silêncio de sílabas
ainda pousadas em terraços distantes
venham aves de sol
saídas de páginas futuras
para iluminarem o caminho
que ainda tenho de percorrer
 
Mas…
deixo ser peixe o meu sorriso
para aquele livro
que de tanto ser navio onde vou
é navio que sou
 
Sim
Os Lusíadas
 
Obrigado Camões
 
 
 

Soares Teixeira – 23-04-2026 (Dia Mundial do Livro)
(© todos os direitos reservados)

domingo, 22 de março de 2026

POEMA DE AMOR - FERNANDO NAMORA

 



POEMA DE AMOR


Se te pedirem, amor, se te pedirem

que contes a velha história

da nau que partiu

e se perdeu,

não contes, amor, não contes

que o mar és tu

e a nau sou eu.


E se pedirem, amor, e se pedirem

que contes a velha fábula

do lobo que matou o cordeiro

e lhe devorou as entranhas,

não contes, amor, não contes

que o lobo é a minha carne

e o cordeiro a minha estrela

que sempre tu conheceste

e te guiou — mal ou bem.


Depois, sabes, estou enjoado

desta farsa.

Histórias, fábulas, amores

tudo me corre os ouvidos

a fugir.


Sou o guerreiro sem forças

para erguer a sua espada,

sou o piloto do barco

que a tempestade afundou.


Não contes, amor, não contes

que eu tenho a alma sem luz.


...Quero-me só, a sofrer e arrastar

a minha cruz.


Fernando Namora



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

QUASE UM POEMA DE AMOR - MIGUEL TORGA

 



Quase um Poema de Amor



Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga, in 'Antologia Poética', pp 293


PALCO - SOARES TEIXEIRA

  PALCO Setembro, dia 30. Setembrámo-nos, meu mundo. Hoje, dia 30, o tempo irá comer a última maçã de Setembro. O rio que sou olha para as m...