quinta-feira, 9 de abril de 2015

"ÉBRIOS" - Soares Teixeira





Num puro divagar de vento
lentamente navego os dedos
nos teus cabelos
a flutuar na minha retina

há uma calma que se liberta
do sono da lua
porque nela somos pálpebra pesada
apetece parar o veleiro e dormir

mas não
estamos ébrios demais
para deixar de beber realidade
ébrios demais mas não o bastante

nunca



Soares Teixeira – 09-04-2015
(© todos os direitos reservados)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

"DANAÇÃO" - Soares Teixeira





Saber onde está
a matéria-prima do poema?
se na nervura do quotidiano?
se na pulsação da metafísica?
Quero lá saber!
Que se dane!

chove
é Abril e parece Dezembro
há dois dias o sol era mel

a matéria-prima do poema
está
numa chávena de café
a rodar em volta da colher imóvel
está
nas árvores ao contrário
e com raízes nas nuvens
está
nos intermináveis testículos de touros
enfiados em buracos de planetas distantes
está
na costela lilás de uma múmia egípcia
ou azteca (tanto faz)
está
por aí no avesso do contrário
e no contrário do avesso

onde ela não está
é nos impropérios que lanço ao tempo
impropérios sim
e porque não?
sou matéria-prima de mim
e em estado de danação
com esta meteorologia que nos é oferecida
por deuses com neurastenia



Soares Teixeira – 08-04-2015
(© todos os direitos reservados)

terça-feira, 7 de abril de 2015

"ASSIM" - Soares Teixeira





Porque havia uma sede
de clarabóias ultrapassadas
fomos um vento vertical
e para trás deixámos
tudo o que não era necessário
ao beijo a florir no espaço

assim acendemos a carne
até ao relâmpago

assim nascemos dos nossos ventres
e chegámos ao absoluto



Soares Teixeira – 07-04-2015
(© todos os direitos reservados)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

"JULGAMENTO" - Soares Teixeira



(Foto da NASA : http://visibleearth.nasa.gov/view.php?id=57723)


Eis o Homem
está aqui para ser julgado
ei-lo
vestido com a pele
do monstro em que se tornou
coroado de lâminas incandescentes
que se tocam no centro do cérebro
onde o milagre
entra na forja da ambição
para ser transformado
naquilo que lhe permita ir mais longe
no egoísmo
na guerra
na traição
na destruição
da Terra
Falai rios, falai oceanos, falai peixes,
falai flores, falai árvores, falai pássaros,
falai!
que tendes a apresentar em sua defesa?

Chora a Obra
Sobre as florestas derrubadas
dói o silêncio das aves
dói a dor das madrugadas
Nos rios nauseabundos
dói a ausência dos peixes
dói a dor dos leitos moribundos
As feridas do milagre não param de sangrar
dói ver o corpo rasgado
dói a dor de olhar

Falai!
falai espaços, falai distâncias falai horizontes
falai pedras, falai vales, falai montanhas
falai de dentro das vossas entranhas

Seja
cumpra-se
e não é necessário que os ventos os levem
os Homens irão pelo seu próprio pé
sozinhos
misturados com a poeira dos seus caminhos



Soares Teixeira – 03-04-2015
(© todos os direitos reservados)