sábado, 17 de janeiro de 2026

O FUNCIONÁRIO CANSADO - ANTÓNIO RAMOS ROSA




O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado de um dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa



 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE - JOSÉ LUÍS PEIXOTO



Explicação da Eternidade


devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"


 

sábado, 13 de dezembro de 2025

AMEI-TE COM AS PALAVRAS - ROSA LOBATO DE FARIA

 




AMEI-TE COM AS PALAVRAS

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.
Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.
Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.
Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.


Rosa Lobato de Faria


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

OBRIGADO, MARIA JOÃO PIRES - SOARES TEIXEIRA


Wolfgang Amadeus Mozart
Piano Concerto No 20 in D menor K 466
Maria João Pires, piano.
Daniel Harding, maestro dirige a Swedish Radio Symphony Orchestra



OBRIGADO, MARIA JOÃO PIRES
 
Solar
descobriu nos dedos
que o piano era universo
e nele semeou
instantes para lá do tempo
 
Mozart escutava
como mãos de luz e rio
tornavam a sua música
árvores a dançar no céu
e sorria, contente
 
O mundo sentia-se poema
e as pessoas pétalas
que se deixavam ir
em viagem de leveza
 
Em suave som de sino
disse adeus à sua dádiva
e nós dizemos:
Obrigado
Maria João Pires
 
Soares Teixeira – 10 de Novembro de 2025
(© todos os direitos reservados) 

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A NOITE - LUÍS MIGUEL NAVA

 



A NOITE

A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê-los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar-nos os poros. Seriam umas duas ou três
da tarde e nós sentíamo-las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam-se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.


Luís Miguel Nava 
(Viseu, 29 de Setembro de 1957 - Bruxelas, 9 de Maio de 1995)




sexta-feira, 15 de agosto de 2025

TERNURA - DAVID MOURÃO FERREIRA

 




TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira





quarta-feira, 6 de agosto de 2025

HIROSHIMA 06-08-1945 - SOARES TEIXEIRA

 

HIROSHIMA

A 6 de agosto de 1945 foi lançada sobre a cidade japonesa de Hiroshima a primeira bomba nuclear da 
História. Estima-se que 70 mil pessoas tenham morrido imediatamente e cerca de 60 mil, vítimas de sequelas, nos meses seguintes.



HIROSHIMA, 06-08-1945
 
 
Átomos apocalípticos
vomitam um clarão a estrondear
 
A explosão é um cortar de gargantas
ao espaço e ao tempo
 
Olhos, portas e árvores
são arrancados com febris dedos
de ensurdecedores gritos de luz
e tudo fica carcaça
 
Hiroshima
arde até aos ossos alucinados
 
A memória contorce-se
em lancinante grito de aviso
 
 
Soares Teixeira – 06 de Agosto de 2025
(© todos os direitos reservados)



O FUNCIONÁRIO CANSADO - ANTÓNIO RAMOS ROSA

O Funcionário Cansado A noite trocou-me os sonhos e as mãos dispersou-me os amigos tenho o coração confundido e a rua é estreita estreita em...